Harrison, Clapton e Pattie Boyd: dois romances, dois clássicos
27/03/2017 13:23 em Let's Rock

 

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Quando a gente é fã mesmo de uma música, fica difícil não se pegar imaginando a história mirabolante que, na sua cabeça, com certeza deve existir por trás dela.

No caso de “Something”, do beatle George Harrison, e “Layla”, do guitarrista e Eric Clapton, a inspiração tem nome e rosto: Pattie Boyd.

A musa de duas das composições mais aclamadas da história do rock protagonizou também um longo, complicado e eletrizante triângulo amoroso ao lado de dois dos maiores artistas que já viveram – passado esmiuçado em sua autobiografia Wonderful Tonight: George Harrison, Eric Clapton and Me, de 2007.

Os casos, movidos a drogas, glamour e muitas reviravoltas, você descobre a seguir:

George Harrison conheceu a modelo Patricia Anne Boyd em 1964, durante a gravação de um dos filmes dos Beatles, A Hard Day’s Night, no qual ela interpretava uma estudante de colegial. Ele tinha 20 anos, ela 19. ”Praticamente uma das primeiras coisas que ele me disse foi ‘quer se casar comigo?’”, explica a inglesa no livro. O casal se uniu em matrimônio dois anos depois do primeiro encontro, durante uma celebração que contou com Paul McCartney como padrinho.

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Mas Pattie, que até se casar vinha posando para anúncios em Londres, Paris e Nova York, passou a enfrentar problemas de relacionamento com o marido poucos anos após começarem a morar juntos. Segundo ela, a infidelidade por parte de George tornou-se recorrente. ”Desde a viagem à Índia em 1968, ele seguia obcecado por meditação, às vezes também retraído e deprimido. Voltou querendo ser algum tipo de figura Krishna, um ser espiritual com muitas concubinas. Nenhuma mulher estava fora do seu alcance”, conta a modelo na sua autobiografia.

Houveram várias puladas de cercas, até com esposas de amigos, como Ringo Starr e Roonie Wood (que, reza a lenda, também teve lá suas escapulidas com Boyd enquanto ela ainda era comprometida). Em meio a tantas supostas traições, havia ainda a reclamação de viverem em uma mansão gigante e sempre cheia de gente; um ambiente boêmio que nunca dormia. “A gente não tinha intimidade. Na maioria das vezes, mesmo quando George estava em casa, eu não sabia onde ele estava. Durante as refeições, havia pessoas demais à mesa para que tivéssemos uma conversa de verdade. E por mais que dividíssemos uma cama, ele frequentemente ficava no seu estúdio de gravação ou meditando”. Depois de oito anos de muitas brigas, o casamento finalmente ruiu, tendo o divórcio finalizado em 1977.

“Something”

Lançada no álbum Abbey Road, de 1969, “Something” foi considerada por John Lennon e Paul McCartney como uma das melhores músicas não só entre as escritas por Harrison, mas do repertório completo dos Beatles. Ela foi mundialmente elogiada, alcançando na época o topo da Billboard nos Estados Unidos e entrando para o top 5 do mesmo ranking na Grã-Bretanha. O sucesso também fica claro com o número de artistas que já fizeram cover da balada: mais de 150, incluindo Elvis Presley, Ray Charles, Shirley Bassey, Tony Bennett, Joe Cocker e Frank Sinatra (que a nomeou a maior canção romântica dos últimos 50 anos).

O hit abordaria, supostamente, o amor do inglês por sua companheira Pattie Boyd.

“Ele me contou que havia escrito [“Something”] para mim. Eu achei que ela era linda e acabou sendo sua composição mais bem sucedida. A versão favorita de George era a de James Brown. A minha era a que ele tocava para mim na nossa cozinha”, diz.

Pattie e Eric

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Em meio aos seus conflitos matrimoniais, no final da década de 1960, Harrison construiu uma amizade muito próxima com Eric Clapton, trabalhando juntos repetidas vezes. Este contribuiu, por exemplo, com solos para canções como “While My Guitar Gently Weeps” (do Álbum Branco, de 1968), enquanto o Beatle ajudou a compor “Badge” (de Goodbye, lançado pelo Cream no mesmo ano). Foi naquele período que Clapton, que carregava um histórico de envolvimentos afetivos com várias beldades, começou a se interessar por Pattie. Mas o caminho foi longo até se envolverem de fato.

“Eric passou a visitar nossa casa. Ele era um artista incrivelmente emocionante de se assistir. No palco, era maravilhoso, muito sexy. Eu sabia que Eric me achava atraente e eu gostava da atenção que ele me dava. Elogiava o que eu estava vestindo e o que havia cozinhado. Essas eram coisas que George já não fazia mais”, comenta Boyd.

Paul como padrinho no casamento de Pattie e George

Paul como padrinho no casamento de Pattie e George

Enquanto a modelo ainda tentava salvar seu casamento com o beatle, o guitarrista chegou a namorar a irmã dela e, algum tempo depois (de novo sozinho), a contar pessoalmente a Harrison, durante uma festa, o que sentia por Pattie – confronto que terminou com ela voltando para casa ao lado do marido enfurecido, que se trancou no estúdio de gravação pelo resto da noite.

Eventualmente, ela passou a retribuir os avanços cada vez mais recorrentes e incisivos de Clapton, trocando flertes que, em suas palavras, colocavam-na em uma situação desconfortável, mas estranhamente excitante. Como alega Pattie, o ápice de tensão entre os dois culminou nos seguintes anos de depressão e vício em heroína (assim como outras drogas que já vinha consumindo) por parte de Eric.

“Um dia, ele apareceu inesperadamente em Friar Park [onde George e Pattie moravam]. Ele disse que queria que eu fugisse com ele, que estava desesperadamente apaixonado e não conseguia viver sem mim”, relata.

“‘Não’, eu disse. Ele tirou então um saquinho do bolso e me mostrou: 

‘Bom, se você não vai embora comigo, eu vou usar isto’.

‘O que é?’.

‘Heroína’.

‘Não seja idiota’. Eu tentei pegá-la, mas ele a apertou com o punho e guardou de volta no bolso.

‘Se você não partir comigo’, ele disse, ‘é isso, acabou’.

E ele se foi. Eu mal o vi durante os próximos três anos.”

Durante o período “fundo do poço”, do qual Clapton só conseguiu sair com a ajuda de amigos e muitos shows, ele continuou enviando cartas românticas declarando seu amor. Uma delas dizia:

“Querida Layla [em referência à canção que compusera para Boyd], por nada mais do que os prazeres vividos, eu sacrificaria minha família, meu Deus e minha própria existência, e mesmo assim você não se manifesta. Meu temperamento está se esgotando, eu não posso voltar e não há nada no futuro (exceto você) que me atraia para além do hoje. Eu ouvi o vento, observei as nuvens negras colidindo. Senti a terra sob mim em busca de um sinal, um gesto, mas só existe silêncio. Por que você hesita? Sou um mal amante? Sou feio? Muito fraco? Muito forte? Sabe o por quê? Se você me quer, me tenha, sou seu. Se você não me deseja, rompa o feitiço que me detém. ‘Enjaular um animal selvagem é um pecado, domá-lo é divino’. Meu amor é seu”.

Em seu livro, a musa complementa: “Estava assinado com um coração. Aquela mensagem trouxe à tona o que eu passei dois meses reprimindo. Respondi dizendo o que ele queria ouvir”.

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Clapton e Pattie se casaram em 1979, dois anos após ela deixar o ex-marido, durante a parada em Tucson, Arizona, de uma das turnês dele. Harrison compareceu à cerimônia ao lado de Ringo e Paul, provando não guardar rancores do que havia acontecido. O casal se separou então em 1984, mas o divórcio só foi concluído em 1988, tendo como justificativa os adultérios cometidos pelo marido, assim como seus problemas com alcoolismo. Entre os casos extraconjugais de Eric, destaca-se o com a modelo italiana Lory Del Santo, com quem teve um filho, Conor, em 1986.

“Layla”

“Nós nos encontramos secretamente em um apartamento em South Kensington [Londres]. Eric Clapton me pediu para ir porque queria que eu escutasse um número novo que havia escrito. Ele ligou a fita, aumentou o volume e tocou a música mais poderosa e comovente que eu já havia ouvido. Era “Layla”, sobre um homem que se apaixona perdidamente por uma mulher que o ama de volta, mas está indisponível. Ele deixou tocar por duas ou três vezes, enquanto analisava o meu rosto atentamente por uma reação. Meu primeiro pensamento foi: ‘meu Deus, todos vão saber que é sobre mim’”.

Esta é a descrição de Pattie Boyd sobre a canção assinada por Eric Clapton e Jim Gordon e lançada por sua dupla Derek and the Dominos no álbum Layla and Other Assorted Love Songs, de 1970. Ela teve duas versões de sucesso: a original e uma acústica, gravada por Clapton em seu disco Unplugged, em 1992, e que conquistou um Grammy. Como “Something”, ela entrou na lista da Rolling Stones de 500 Maiores Músicas de Todos os Tempos e ganhou notoriedade nas paradas americanas.

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O título da canção, por não poder revelar a identidade verdadeira do alvo de desejo do compositor, foi inspirado em “A História de Layla (ou Layla e Majnun)”, conto datado do século XII e de autoria do poeta persa Nizami Ganjavi. Baseada no caso real de um jovem árabe chamado Qays ibn al-Mulawwah, do século VII, a narrativa relata o infortúnio de uma princesa que teve a mão concedida em casamento pelo pai contra a sua vontade, levando a loucura o homem que realmente a amava.

Clapton descobriu o folclore enquanto elaborava a nova música por meio de um amigo que estava se convertendo ao islamismo. A semelhança entre os sentimentos do protagonista e de Eric era clara e, assim, Pattie foi eternizada como Layla.

Segundo o compositor, ele adora ouvir esta música.

“Derek and The Dominos era uma banda que eu gostava muito – e é quase como se eu nunca tivesse participado dela. Às vezes minha própria música pode ser assim. Quando ela serviu seu propósito de ser boa música, eu não a associo mais comigo. Parece de outra pessoa. Aí fica fácil de tocá-la”.

Já Pattie completa:

“Acho que [Clapton] estava extremamente cru e transparente naquela época. Ele é um músico tão incrível que consegue imprimir suas emoções em uma canção de um jeito que o público a sente instintivamente. Ela te atravessa”.

Durante a vida a dois, Eric dedicou ainda outra composição a Boyd: “Wonderful Tonight”, gravada em 1977.

A revanche

Um triângulo amoroso cujo desenrolar já seria tremendamente interessante se terminasse por aí, conta ainda com um último “turning point”. De acordo com depoimentos divulgados pela modelo Lory del Santo, ex-exposa de Eric Clapton, ela e George Harrison teriam vivido um breve affair em dezembro de 1991, durante três dias em que se encontraram na cidade de Hiroshima, no Japão.

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O “payback” aconteceu na suíte de luxo do Plaza Sun Hotel, em meio a uma das turnês feitas entre os dois músicos, e, nas palavras da italiana, foi pincelado por muitas conversas sobre os envolvimentos anteriores deles com Pattie e Eric.

E para dar só mais um gostinho desta história maluca, Eric Clapton comentando sua atitude “franca, mas respeitosa” quanto ao que sentia pela mulher do amigo:

Fonte: Perdidos no Ar

 

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